Duplo vínculo: ambiguidade e criação

Duplo vínculo: ambiguidade e criação

AUTORA:ELIZABETH LUIZ SOARES – Psicóloga CRP-08892 e Doutora em Psicologia pela UFRJ
*Artigo originalmente publicado no livro Epistemologias não-ordinárias: paradigmas alternativos nas ciências humanas e sociais, BOOKLINK , 2004

“O ser humano vive a impossibilidade de dar previamente um sentido para sua existência”.

Podemos caracterizar a importância na nossa vida e no desenvolvimento psíquico, as relações estabelecidas com outras pessoas. Elas têm seus sentimentos e suas formas de pensar. Percebem seus próprios atos e as outras pessoas, por sua vez, podem ver o que ocorre. As impressões recebidas e os atos fixados se registram e como resultado destes significantes, assimilado ao longo das experiências do indivíduo, a visão que temos de nós mesmos ou dos outros, pode ser confirmada, alterada ou modificada radicalmente. A soma total desses significantes acumuladas através dos anos forma a identidade de uma pessoa e determina, em parte o modo como serão manejados aos acontecimentos futuros.

O ser humano está em constante movimento, que é determinado pelas necessidades  a nível consciente e pelas exigências do contexto sócio-cultural, decorrendo assim a possibilidade de obter soluções, o que gera a ação.

A linguagem surge como algo que medeia a ação, através da palavra que tem um caráter instrumental, altamente, significativo, na medida em que expressa ao outro uma comunicação e reflete um conteúdo ideológico cultural que está a ela vinculada, garantindo assim manutenção da cultura.

Gregory Bateson, Paul Watzlawisck, Jurgen Ruesh e outros denominaram duplo vínculo a análise da psique humana, apoiados na teoria da comunicação. Um modelo integrado por distintos elementos: as mensagens desqualificadoras e suas respostas. A desqualificação é uma relação de incongruências entre mensagens. A unidade da análise é relação entre duas mensagens, unidade esta que se denomina transação. Se a resposta aceita algum dos dois possíveis significados da desqualificação, se completa o fenômeno do duplo vínculo. Se a resposta tende a aclarar ou neutralizar a mensagem desqualificadora, não se verifica o duplo vínculo. Para determinar a forma precisa, de que maneira se desqualifica, a unidade de análise é a interação verbal, estudando as incongruências da resposta de um participante com respeito ao conteúdo de mensagem prévia do outro.

O homem busca a ação através do estilo de mensagens emitidas, para solucionar o estado de satisfação das emoções muitas vezes inconsciente. Evidenciam-se assim as relações que se estabelecem com os objetos, referindo-se a atitude e ao comportamento do indivíduo para com esses objetos. Possibilitando a identificação da sua vida intrapsíquica do sujeito, através do estilo de mensagens emitidas.

A linguagem surge como algo que medeia a ação do entre-dois, através da palavra, ela constrói o “mosaico”, vivido pela “fluidez” do entre-dois, expressando assim a ambiguidade na dialética.

É na dialética vivida nas relações interpessoais que a ambiguidade – ambivalência vão se delineando. A ambivalência é representada pelas emoções vividas no entre-dois. A ambiguidade se faz na díade pela ressonância afetiva vivenciada no entre-dois. É na dialética que entramos em contato com alteridade construindo assim o duplo, com suas conotações de alteridade e estranhamento, de contradições em ambiguidade. A dialética é a estranheza do outro na minha estranheza, e a aparição do estranho no entre-dois, é a experiência da alteridade do eu no outro e do outro no meu e do íntimo estranho entre nós.

A ambivalência se representa na estrutura da língua e a ambiguidade se faz presente na comunicação (Bauman, 1999). As bases da prática moderna é a oposição por excelência, a dicotomia refletida na ambivalência – ambiguidade. A dicotomia é um exercício de poder e ao mesmo tempo sua saída. A ambivalência é, provavelmente, a mais genuína preocupação e cuidado da era moderna, uma vez que ao contrário de outros inimigos, derrotados e escravizados, ela cresce em força a cada sucesso dos poderes menores.

A história da modernidade é uma história de tensão entre o eu e o outro, inseridos na existência social e cultural. Vivenciamos que através do ato de criação, vem se amenizando os conflitos internos estabelecidos, na saída para uma nova possibilidade. A saída  se faz pela arte, numa reconstrução de si mesmo e das estruturas em que vivemos hoje. A obra resulta de uma experiência interior, frequentemente evidenciada na união, na reconciliação e na comunhão, com o mundo. A obra é produto de elaboração sintética completa e  dotada de eficácia, portanto potente. “O novo romance se faz por uma recuperação ativa do passado, realizando a passagem do descontínuo ao contínuo, criando a realidade imediata, dentro da experiência, vivida como global e expressa através de uma forma” (M ‘Uzan, p. 15, 1964).

“Eu confessarei tudo que importar a minha história. Ora, só há um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda: o bem e o mal. Tal faço eu à medida que vou lembrando e convindo a construção de mim mesmo.”
Dom Casmuro – Machado de Assis p. 102

Na obra podemos citar Benjamin na sua análise da “rememoração”, “é a forma própria da memória moderna, que se nutre mais espontaneamente da experiência transmissível, mas requer uma atitude, a saber uma escuta: o romance, a historiografia, uma nova lírica” (Muricy, p. 17, 1999). A sua afirmação de temporalidade se baseia: na procura do passado no futuro. Ao ler uma obra literária estamos evocando um passado para entender o futuro. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época  e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos.

“Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, enterrados e abri-los a compará-los, catando o texto e o sentido para achar a origem comum do oráculo pagão e o pensamento israelita.   Catei os próprios vermes dos livros nos textos roídos por eles”.
“Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos: nós roemos”.
Dom Casmuro – Machado de Assis p.35

É importante ressaltar neste contexto o conceito de ambivalência citado por Bauman, p. 38, 1999: “entendemos uma obra na ambivalência das emoções refletida na ambiguidade e construída no contexto sócio-cultural”.

Referências

ASSUMPÇÃO, M. L. Ambiguidade e ambivalência. Revista Arquivos Brasileiros de Psicologia. 2002, n. 5, vol. 54, Rio de Janeiro: UFRJ/Imago.
BATESON, G. The birth of a matrix or double bind and epistemology. In: Beyond the Double Bind. N.Y.: Brunner, Mazel, p. 39-64, 1978.
BAUMAN, Z. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Zahar, 1999
M’UZAN, M. De l’act à mort. P. 3-15, 1964.
MALUF, U. Introdução à teoria das estranhezas. Rio de Janeiro: Booklink, 2002
MANGO, E. Le contre – Tranfert infinit. Revue Française de Psychanalise, vol. 5, 1994.
MURICY, K. Alegorias da dialética. Rio de Janeiro: Relume e Dumará, 1999.
SLUZKI, C. E., BEAVIN, J., TARNOPOLSKY y VÉRON, E. Art: Transações desqualificadorras: Investigacion sobre el “double vinculo” Acta, psiquiatria, psicologia América Latina, 1966, 12, 329, vol. XII.

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Luci Pereira

CRP 05/4475. Mestre em Psicologia Social; Pós-Graduada em Recursos Humanos; Psicóloga; Dinamicista; Psicodramatista e Coach. Consultora de organizações públicas e privadas de médio e grande porte, nacionais e multinacionais com atuação no planejamento e execução de programas de treinamento e desenvolvimento de pessoas, elaboração de projetos de consultoria voltados para pesquisas e comportamento organizacional como subsídio para formulação de políticas e/ou planejamento dos sistemas técnicos de RH, orientação vocacional e profissional, coaching e mentoring.Participação como palestrante em congresso nacional de Psicodrama. Consultora DISC E-TALENT.

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